Resultados
Amostragem
O piloto rodou primeiro nas duas filiais escolhidas para representar os extremos de maturidade, e depois foi estendido para o restante da rede em ondas. Antes de listar o que melhorou, vale registrar algo que ouvi de um agenciador durante a devolutiva do piloto, porque isso mudou como eu li os próprios resultados:
"...sem dúvida, essa dependência da expedição gera perdas de produtividade e de oportunidade. Porém, quando nós que estamos nessa ponta não temos autonomia para interagir na oferta das cargas e agir rapidamente diante dos gargalos operacionais, acabamos dando um passo para trás em termos de eficiência. A tecnologia existe, mas a operação perde agilidade por depender de etapas que não conseguimos influenciar diretamente."
Essa fala é importante por dois motivos. Primeiro, ela é honesta sobre os limites de qualquer número que eu apresente aqui: o próprio agenciador reconhece que o impacto varia com volume do dia, disponibilidade de frota e perfil de entrega, e que não há um valor único e exato para "quanto o painel melhorou a operação". Trato os números abaixo com essa mesma cautela, como direção e ordem de grandeza, não como medição de precisão.
Segundo, e mais relevante para o projeto, ela expõe um limite do que a V1 do painel resolveu: dar visibilidade não é o mesmo que dar autonomia. O agenciador identifica o gargalo rápido, mas continua sem poder de ação direta sobre a oferta e a redistribuição de cargas, porque essa decisão passa pela expedição, uma etapa que ele não controla.
Com isso em mente, o que de fato mudou:
- A visibilidade sobre ociosidade da frota melhorou, mas o poder de agir sobre ela ainda é parcial. O indicador de motoristas sem carga atrelada, que partia de uma média de 43 veículos por filial (cerca de 67 placas e 1.240 toneladas de capacidade parada), passou a ser acompanhado em tempo real pelo próprio agenciador, e não só pela gestão no relatório do dia seguinte. Isso reduziu o tempo entre identificar a ociosidade e sinalizar o problema para quem podia agir. Nas filiais piloto, o número caiu para uma faixa entre 30 e 35 veículos, uma melhora real, porém mais modesta do que se o agenciador pudesse recolocar a carga sozinho no momento em que via o motorista parado.
- O tempo de espera do motorista segue sendo o ponto mais sensível. Esse foi justamente um dos impactos citados pelo agenciador, e os dados confirmaram a percepção: mesmo enxergando o gargalo na hora (espera, carregamento, trânsito ou descarga), a filial só consegue reduzir a espera quando a redistribuição da carga é aprovada por quem está fora da ponta operacional. O ganho do painel aqui foi de antecipação, não de resolução: o agenciador passou a sinalizar o problema minutos depois de ele aparecer, em vez de horas depois, mas o tempo de resposta da cadeia ainda depende de terceiros.
- OTIF teve melhora consistente, mas ainda distante do potencial citado pelo agenciador. O volume carregado contra o pendente, que rodava em torno de 87% contra uma meta de 90%, passou a oscilar entre 89% e 91% nas semanas de operação mais estável. É uma melhora real, mas o próprio time de agenciamento avalia que o ganho seria bem maior se pudessem agir diretamente na redistribuição da carga no momento em que percebem o risco, e não apenas relatar o risco para outra área decidir.
- O aging das cargas ofertadas sem aceite caiu, dentro de uma faixa mais variável do que eu esperava inicialmente. Antes do painel, uma carga ofertada e sem aceite ficava em média 2,4 dias parada até alguém perceber e agir. Com o motivo do travamento exposto na tabela operacional (falta de motorista, erro de roteirização, stockout, bloqueio de crédito), esse tempo caiu, mas de forma desigual: em dias de volume baixo e frota disponível, a resposta ficou próxima de algumas horas; em dias de pico, com pouca disponibilidade de frota, o ganho foi bem menor, exatamente como o agenciador descreveu ao dizer que o impacto varia com o volume do dia.
- Índice de recusa dos motoristas parceiros e giro de frota seguem como indicadores de atenção. Esses dois pontos, citados diretamente pelo agenciador como consequência da falta de autonomia na ponta, ainda não mostraram uma melhora clara atribuível ao painel isoladamente. A leitura do time é que recusa e giro de frota dependem mais da velocidade de resposta a um gargalo do que da visibilidade sobre ele existir, o que reforça que esses indicadores vão responder melhor quando o agenciador tiver poder de atuação direta na oferta, não apenas informação sobre ela.
- Onboarding de agenciadores ficou mais rápido, esse foi um dos ganhos mais claros e menos disputáveis. Antes, um agenciador novo levava semanas para aprender a montar sua própria versão da planilha de controle, geralmente copiando o modelo de outra pessoa. Com o painel padronizado entre filiais, o tempo para operar com autonomia caiu de cerca de três a quatro semanas para menos de duas, porque a lógica de leitura é a mesma em qualquer unidade.
Aprendizados
O maior risco deste projeto nunca foi de execução, foi aceitar o enunciado do problema como ele chegou. A empresa já tinha dezenas de painéis subutilizados; construir mais um dashboard bem desenhado não teria mudado o resultado de negócio. O que mudou a trajetória do projeto foi ir a campo antes de desenhar qualquer tela, cruzar entrevistas de filiais com realidades muito diferentes entre si, e insistir em nomear a causa raiz, uma inconsistência sistêmica de informação mascarada por relacionamento pessoal, mesmo quando isso significava propor duas hipóteses de solução deliberadamente conflitantes só para forçar uma decisão explícita de escopo, em vez de deixar o caminho mais fácil vencer por omissão.
Fica um critério que pretendo levar para os próximos projetos: toda funcionalidade candidata precisa ser testada contra a pergunta "isso resolve a causa raiz, ou só maquia o sintoma?", com a disciplina de cortar do escopo tudo que passar apenas no segundo teste.